sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A legislação sobre aborto no mundo

Leis relativas à interrupção da gravidez variam bastante de país para país, da proibição absoluta à despenalização em alguns casos e à permissão em todas as circunstâncias.
Manifestantes com cartazes nas ruas de Santiago em comemoração à descriminalização do aborto no país. Manifestantes com cartazes nas ruas de Santiago em comemoração à descriminalização do aborto no Chile, em agosto 2017
Segundo dados da ONU, em dois terços de 195 países analisados pela ONU, a interrupção da gravidez só é permitida quando a saúde física ou psíquica da mulher está ameaçada.
Na metade desses países, a intervenção é permitida quando a gravidez é resultado de estupro ou incesto, ou se é comprovado que o feto possui alguma malformação que pode colocar sua vida em risco. Somente um terço desses países leva em consideração a situação econômica ou social da mãe para permitir um aborto.
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Metade dos abortos realizados no mundo coloca vida de mulheres em risco
El Salvador, Nicarágua, República Dominicana, Malta e Vaticano ainda mantêm a proibição absoluta da prática. Confira como são as leis de aborto em outros países mundo afora:
Brasil
No Brasil, o aborto só é permitido quando há risco de morte para a gestante, quando a gravidez resulta de estupro ou quando o feto é anencéfalo.
Alemanha
Desde 1976, as mulheres podem interromper a gravidez legalmente, mas sob determinadas condições. O aborto deve ser realizado até a 12ª semana de gestação. É preciso que, ao menos três dias antes do procedimento, a mulher passe por uma consulta num centro de aconselhamento reconhecido pelo Estado ou que apresente um boletim de ocorrência que indique que a gravidez decorreu de um crime sexual. A partir da 12ª semana, o aborto é permitido somente por recomendação médica.
Áustria
O aborto é legal desde 1975 e pode ser feito por decisão da mulher ou motivos médicos. O procedimento é permitido até a 16ª semana, e a gestante precisa ser aconselhada por um médico antes da intervenção. Depois desse período, o aborto só é permitido em casos de risco à saúde física ou psicológica da mulher, se o feto apresentar alguma deficiência grave ou se a gestante for menor de 14 anos.
França
O aborto foi legalizado em 1975 e, desde 2001, é permitido até a 14ª semana de gestação. Neste mesmo ano, houve outras alterações importantes na legislação relativa à interrupção da gravidez, como o fim da obrigatoriedade de autorização dos pais para gestantes menores de idade em todos os casos.
Holanda
Ainda que a interrupção da gravidez possa ser feita até a 22ª semana de gestação por decisão da mulher, a Holanda é um dos países com menor nível de abortos do mundo. A política de educação sexual e o fácil acesso a métodos contraceptivos são considerados motivos para esse baixo número.
Em 2016, mulheres polonesas protestando com bandeiras negras contra projeto de lei que proíbe totalmente o aborto no país. Em 2016, mulheres polonesas protestaram contra projeto que queria proibir por completo o aborto no país
Polônia
O aborto é permitido somente em casos de estupro, incesto, malformação grave do feto ou risco à vida da mulher. Há pouco mais de um ano, apósprotestos em todo o país, o Parlamento rejeitou uma proposta que visava a proibição total do aborto.
Portugal
O aborto foi legalizado em 1984 em casos de risco à vida da mulher, malformação fetal ou estupro. Em 2007, após um referendo nacional, a interrupção da gravidez por opção da mulher até a 10ª semana de gestação passou a ser permitida. Há pouco mais de um mês foi divulgado um estudo que aponta que Portugal é o país europeu com menos abortos por cada mil nascimentos vivos. Segundo o diretor-geral da Saúde do país, Francisco George, isso demonstra que o acesso à interrupção voluntária da gravidez foi "um grande sucesso".
Espanha
Em 1985, o aborto foi legalizado em três casos: risco à saúde física ou psíquica da mulher, estupro e malformação do feto. Desde 2010, o procedimento é permitido por decisão da mulher até a 14ª semana e, em casos especiais, até a 22ª semana de gestação. Uma grande mobilização nacional surgiu em 2014 frente à tentativa do governo de reduzir o acesso ao aborto legal no país. Em 2015, o Senado determinou que menores de idade precisam da autorização dos pais para a intervenção.
Mulher com cartaz protesta por legalização do aborto na Irlanda. Setembro de 2017: Milhares de irlandeses protestam pelo direito ao aborto legal no país
Irlanda
Segundo a Anistia Internacional, o país tem uma das leis de aborto mais restritivas do mundo, sendo considerado pela organização injusto e intolerante em relação às mulheres. O aborto é permitido somente em caso de risco à vida da gestante. Há casos documentados pela Anistia em que o aborto foi negado a mulheres cujos fetos já estavam mortos em seus ventres; obrigando-as a prosseguir com a gravidez durante meses. O aborto ilegal pode render uma pena de até 14 anos de prisão.
Argentina
O país ainda tem restrição ao aborto voluntário. O artigo 86 do Código Penal declara a interrupção da gravidez como ato não punível se a vida ou a saúde da mulher estão em risco, se é fruto de estupro ou atentado ao pudor cometido contra uma mulher com deficiência intelectual. Em 2012, a Corte Suprema, em uma ação inédita, declarou que o aborto é permitido ante violência contra toda vítima, já que o termo anterior dava margem à interpretação de que somente vítimas com deficiência intelectual tinham direito ao aborto. Além disso, foi também determinado que médicos não necessitam requerer nenhuma autorização judicial para realizar a intervenção nas situações citadas previamente. Ainda que o aborto voluntário seja punível, estima-se que, anualmente, são realizados cerca de 500 mil abortos ilegais em toda Argentina.
Uruguai
Em 2012, foi aprovada a lei que descriminaliza o aborto em qualquer circunstância até a 12ª semana de gravidez. Em caso de estupro, o procedimento é permitido até a 14ª semana de gravidez. A legalização do aborto no país teve impacto imediato sobre a redução de mortalidade de gestantes.
Michele Bachelet, presidente do Chile, decreta lei de legalização do aborto. Michelle Bachelet decreta aborto legal no Chile, em setembro deste ano
Chile
Em agosto desde ano, o Chile aprovou a legalidade do projeto de lei que descriminaliza o aborto no país sob três circunstâncias: inviabilidade fetal, risco de morte da mulher e fruto de estupro. Em 1989, em meio à ditadura de Augusto Pinochet, o aborto havia sido absolutamente proibido. Sua descriminalização nos três casos acima havia sido uma das promessas políticas da presidente Michelle Bachelet.
México
Cada um dos estados tem uma legislação própria sobre o aborto. Desde 2007, o aborto é permitido na Cidade do México até 12ª semana de gestação, por decisão da mulher.
China
O aborto é totalmente legalizado. Durante a vigência da chamada política do filho único, entre o fim dos anos 1970 e 2015, estima-se que foram realizados cerca de 336 milhões de abortos. A decisão de acabar com a política do filho único foi motivada pelo envelhecimento da população e pela queda na taxa de natalidade. Os casais podem agora ter no máximo dois filhos.
Rússia
Em 1920, a Rússia se tornou o primeiro país do mundo em permitir o aborto sob qualquer circunstância. Sendo proibido entre 1936 e 1954, a intervenção foi novamente legalizada, tornando-a permitida até a 12ª semana. Na União Soviética, pela falta de métodos anticoncepcionais e de educação sexual, o aborto era tido como a única ferramenta de planejamento familiar. Atualmente, a Rússia é o país com a maior quantidade de interrupções voluntárias da gravidez: calcula-se que, em média, são feitos 1 milhão de abortos voluntários por ano no país.
EUA
O aborto é um tema controverso nos Estados Unidos. Desde 1973, a intervenção é legal em todo o país, porém, o acesso ao procedimento varia de estado para estado, assim como as circunstâncias em que é permitido. Segundo levantamento do Instituto Guttmacher, após um momento específico da gravidez, 43 estados americanos só permitem o aborto caso a gestação represente risco à vida ou à saúde da mulher. Uma série de projetos de lei vem tentando restringir a prática no país.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

"Brasil é outro mundo", diz ex-ministra da Justiça alemã

Em entrevista à DW, jurista e ex-deputada Herta Däubler-Gmelin afirma que nunca aconteceria na Alemanha de um presidente sob suspeita de corrupção e alvo de denúncia não renunciar imediatamente ao cargo.
A social-democrata Herta Däubler-Gmelin ocupou o cargo de ministra entre 1998 e 2002, no governo Gerhard Schröder A social-democrata Herta Däubler-Gmelin ocupou o cargo de ministra entre 1998 e 2002, no governo Gerhard Schröder
Para Herta Däubler-Gmelin, que ocupou o cargo de ministra da Justiça na Alemanha entre 1998 e 2002, é inconcebível  manter um político na liderança do país quando suspeitas de corrupção são apontadas pela Procuradoria-Geral. Mas isso é na Alemanha. O Brasil, segundo ela, "é outro mundo".
A advogada, deputada federal por mais de 30 anos pelo Partido Social-Democrata (SPD), é professora na Universidade Livre de Berlim e veio ao Brasil participar de um debate público sobre democracia. Na visão de Däubler-Gmelin, magistrados não devem se intrometer nos conflitos políticos cotidianos. "Isso compromete a neutralidade e a independência do juiz", afirma, em entrevista à DW.
DW Brasil: A senhora veio ao Brasil participar de um debate ao lado do ex-ministro Tarso Genro que, pelo título – "Política x Justiça: Qual o futuro da democracia?" –, coloca Justiça e política em lados opostos.
Herta Däubler-Gmelin: A intenção é refletir sobre a democracia que queremos. É uma democracia em que as decisões são tomadas de cima para baixo, em que algumas pessoas não são consideradas cidadãs, em que o sistema judiciário é usado apenas para privilegiar ricos e poderosos, para preservar privilégios? Ou queremos uma democracia participativa? Quais elementos precisam pertencer a essa democracia? Há bons exemplos, mas há exemplos muito ruins nesse sentido.
DW: Dentro dessas reflexões, qual é a tendência do Brasil?
Eu ouço que existem muitos acontecimentos preocupantes. Sob a perspectiva alemã, devo dizer que não é comum ver juízes interferirem nas disputas políticas cotidianas na Alemanha. Esse comportamento é, absolutamente, um "no go". Isso não pode acontecer de forma alguma. Isso compromete a neutralidade do juiz, sua independência e até jurisdição. Isso coloca também a confiança da população na instituição em xeque.
Por outro lado, nunca aconteceria na Alemanha de um presidente sob suspeita de corrupção, com denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República, não renunciar imediatamente ao cargo.
Tivemos um caso notório na Alemanha [renúncia do presidente Christian Wulff, em fevereiro de 2012]. Tratava-se de 700 Euros. Mas, obviamente, assim que o procurador-geral apresentou a denúncia, estava claro para a opinião pública que o presidente tinha que renunciar. E foi o que ele fez.
Aqui é outro mundo. Então eu posso entender a certa descrença que há aqui no atual desempenho do Judiciário, de alguns juízes e juízas – mas é claro que não estamos falando de todos, também há tendências completamente diferente, como sabemos.
DW: Como a senhora acompanha e avalia a atual crise política no Brasil?
Os acontecimentos políticos no Brasil estão sendo noticiados pela imprensa alemã e internacional. E depois de tudo o que vi e li nestes últimos dias, temo que esteja havendo um retrocesso cruel com impactos para a população mais pobre. É lamentável.
DW: O Brasil tem um sistema presidencialista, e, atualmente, boa parte do Congresso está sendo investigada. Como a senhora avalia o desempenho do Judiciário em garantir o bom funcionamento da democracia?
Quando o objetivo é garantir uma democracia participativa, os elementos que pude observar na Justiça daqui nem sempre são favoráveis. Existem muitas possibilidades de que alguns atores influenciem e conduzam processos de maneira parcial. E nessa interação, quando também se considera o papel do presidente, vemos uma estranha parcialidade entre Judiciário e Legislativo, ou até uma cegueira em relação às suspeitas de corrupção envolvendo políticos que precisam ser investigadas. Isso é muito preocupante e não é de se admirar a queda extraordinária da confiança nas instituições.
DW: Quão importante é investigar suspeitas de corrupção para manter a democracia fortalecida?
A corrupção parece ser um problema muito grave no Brasil. Por isso eu apoio muito o combate a corrupção. Mas é necessária uma luta ampla, em todas as direções, independentemente do partido. Se um presidente governa pelos interesses de poucos poderosos e recebe um tratamento diferente, mesmo anteriormente tendo se posicionado a favor de uma democracia participativa e da inclusão dos mais pobres, então é uma catástrofe.
DW: O autoritarismo e extremismo político parecem estar se espalhando pelo mundo. Como a senhora avalia essa tendência?
Há diferentes ameaças à democracia. As correntes mais autoritárias e conservadoras estão mais fortes não apenas na América Latina, mas também na Europa. Lá também vemos uma queda significativa da confiança na democracia, por motivos diferentes. Também há a questão do autoritarismo, como alguns partidos na Polônia ou na Hungria, que pregam de maneira muito forte elementos antidemocráticos e que tentam, dessa forma, se estabilizar como um poder. Pessoalmente, não acho que isso possa se concretizar em médio prazo.
Por outro lado, naturalmente há também problemas relacionados à globalização que têm um efeito muito negativo sobre a democracia. Pois muitas pessoas têm a impressão de que as decisões não acontecem mais na política, mas no campo da economia. Então elas ficam inquietas quando têm a sensação de que os políticos não cuidam mais de seus interesses ou de suas necessidades.

Que países fazem mais pelo clima global?

Protagonistas da COP23 se esforçam para se apresentar o mais verde possível. Enquanto isso, outros, como o Marrocos, despontam como inesperados exemplos positivos. Índice mostra quem está fazendo mais progresso.
Também crianças se manifestaram em Bonn em favor do clima global Também crianças se manifestaram em Bonn em favor do clima global
Muitos países estão exibindo na conferência COP23, em Bonn, os seus sucessos no combate à mudança do clima global. Mas isso faz com que sejam mais verdes?
O Índice de Desempenho na Mudança Climática (CCPI, na sigla em inglês) 2017, divulgado nesta quarta-feira (15/11), lista 56 nações e a União Europeia de acordo com suas emissões de gases-estufa, desenvolvimento de energias renováveis, uso energético e política para o clima. O relatório é publicado pela ONG ambiental alemã Germanwatch e a rede Climate Action Network.
Suécia, Lituânia e Marrocos obtiveram as melhores cotações, cabendo as piores a Coreia do Sul, Irã e Arábia Saudita. Como no ano anterior, a Alemanha teve uma colocação relativamente modesta, em 22º lugar, especialmente devido a seu uso maciço de carvão mineral. Outros países desenvolvidos, como Canadá, EUA e Japão, aparecem entre os dez últimos colocados.
O Brasil é 19º - o primeiro país na categoria desempenho mediano. O relatório atribui o posicionamento ao uso de energia hidroelétrica, que ajuda a limpar a matriz energética nacional. Porém, o texto destaca que nos últimos cinco anos o país fez muito pouco para cortar suas emissões e alerta para uma tendência negativa no atual governo.
Ninguém é "muito bom"
A boa notícia é que o crescimento médio das emissões de CO2 caiu, em relação ao CCPI 2016. Por outro lado, nenhum país se comportou de modo a merecer o predicado "muito bom".
Apesar de a Suécia liderar a lista, graças a uma queda das emissões e alta percentagem de fontes renováveis em sua matriz energética, ainda lhe falta ambição. Segundo os autores do relatório, as metas do país escandinavo para a energia renovável até 2030 não bastarão para manter o aquecimento global abaixo de 2ºC em relação à era pré-industrial.
Marrocos, por sua vez, está em ascensão, tendo promovido intensamente a transição para a energia renovável, que agora está implementando. A previsão é que nos próximos anos a nação norte-africana alcançará rankings ainda mais altos.
Fórmula de sucesso do Reino Unido
O primeiro a ancorar a redução de emissões em sua legislação nacional foi o Reino Unido, em 2008. Isso ajudou o país a avançar, pois, pelo menos nesse aspecto, a política energética não está à mercê dos caprichos de quem quer que chefie o governo.
"Reduzimos as emissões carbônicas em 40% desde 1990, enquanto a economia cresceu 70%", disse Nick Bridge, representante especial de Londres para a mudança climática. As taxas cobradas sobre o CO2 estiveram entre os principais motores do sucesso britânico.
"Fomos de 40% de carvão em nossa geração de eletricidade, cinco anos atrás, para quase nada", acrescentou. No ano corrente, o país, que ocupa a 8ª colocação no CCPI, conseguiu ter até mesmo um dia de emissão zero. O bom desempenho se deve também à produção de energia eólica offshore, em que o Reino Unido é campeão mundial, e uma guinada em direção à economia circular.
No entanto, segundo o relatório apresentado na COP23, "as metas do país para 2030, em emissões e energia renovável, não são suficientemente ambiciosas para uma trajetória bem abaixo dos 2ºC".
Alemanha e o carvão
Como coanfitriã da conferência internacional do clima, a Alemanha desfila seu inventário de fontes de energia limpa. Na prática, porém, o país segue sendo um dos dez maiores emissores do mundo, estando ameaçado de descumprir suas metas climáticas.
Embora os alemães se comprometam a reduzir em 40% seus gases-estufa até 2020, as medidas atualmente adotadas só bastarão para uma redução de cerca de 30%. Uma enorme indústria de linhita e o setor de transporte são os maiores obstáculos ambientais do país.
"O carvão não tem futuro, o mundo está se afastando dele. A Alemanha tem que seguir a tendência", apelou Eberhard Brandes, da WWF Germany. "Senão, nós nem seremos um modelo a ser seguido, nem vamos cumprir nossos compromissos internacionais."
Gás na Rússia, atraso na Coreia do Sul
Os autores do Índice de Desempenho situam a Rússia entre os últimos da lista climática, devido a suas emissões elevadas e pouco uso de energias renováveis. O país possui a maior reserva de gás natural do mundo, assim como algumas das maiores de carvão e petróleo.
Esse fato não impediu Alexey Kulapin, diretor do Departamento Estatal de Política de Energia em Moscou, de afirmar, numa coletiva de imprensa na COP23, que o sistema russo é um dos mais verdes do planeta.
"O gás natural responde por mais da metade das fontes energéticas da Rússia, e todos sabem que gás é uma das fontes mais ecológicas", insistiu. Segundo os especialistas, o país carece de ambição na política climática doméstica e tem um longo caminho a percorrer, até melhorar sua colocação no CCPI.
Com um emprego extremamente reduzido de fontes renováveis, a Coreia do Sul consta em antepenúltimo lugar na lista. "Temos que incrementar nossas energias renováveis, mas com sabedoria", explicou Yoo Young-sook, diretora da ONG The Climate Change Center.
Ela teme que um abandono drástico da energia nuclear só acarretará o aumento das emissões de combustíveis fósseis: para seu país, as fontes renováveis ainda são coisa do futuro, reconhece a ex-ministra do Meio Ambiente da Coreia do Sul.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Globo e duas empresas pagaram propina de R$ 49 milhões por copas, diz Burzaco



Empresário argentino Alejandro Burzaco presta depoimento no julgamento do ex-presidente da CBF, José Maria Marin


O Estado de S.Paulo
15 Novembro 2017 
A Rede Globo, Televisa e uma terceira empresa entraram em acordo para pagar US$ 15 milhões (R$ 49 milhões) em suborno a Julio Grondona, presidente da Federação Argentina de Futebol durante três décadas e falecido em 2014, em troca de apoio para a obtenção dos direitos de transmissão das Copas de 2026 e 2030.
'Del Nero tomava as decisões', diz defesa de Marin em julgamento nos EUA
A afirmação foi feita pelo empresário argentino Alejandro Burzaco, ex-presidente da empresa Torneos y Competencias nesta quarta-feira, durante depoimento no Tribunal do Brooklin, em Nova York, no julgamento do ex-presidente da CBF, José Maria Marin. Burzaco é testemunha-chave de acusação no maior escândalo de corrupção da história da Fifa.


Alejandro Burzaco
Alejandro Burzaco foi ouvido como testemunha de acusação no processo Foto: John Taggart/Reuters
De acordo com o depoimento, o suborno foi acertado em 2013 durante uma reunião da Fifa, em Zurique, na Suíça. Além dos gigantes da comunicação do México e do Brasil, a terceira companhia envolvida era a Datisa, uma sociedade entre a própria Torneos y Competencias e as empresas Traffic e Full Play. Ainda de acordo com Burzaco, o dinheiro foi depositado em uma conta na Suíça.
Na primeira parte do depoimento, ainda na segunda-feira, Burzaco afirmou que a Rede Globo foi uma das companhias de mídia que pagaram subornos para vencer a concorrência por direitos de transmissão de competições internacionais, como a Copa América, a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana.
Após o primeiro dia de depoimento, o Grupo Globo enviou a seguinte nota oficial ao Estado:
"O Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que após mais de dois anos de investigação não é parte nos processos que correm na Justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. Por outro lado, o Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Não seria diferente, mas é fundamental garantir aos leitores, ouvintes e espectadores do Grupo Globo que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige".  
Comentários deste blogueiro: Ora, as tais "investigações internas" da Globo são suspeitíssimas e não querem dizer ou provam nada. Acreditar nelas seria o mesmo que pôr o lobo para vigiar o galinheiro ou, então, os partidos políticos dizerem ao TSE que usaram caixa dois. (Isto fica na clandestinidade, omitido, não registrado - ainda mais em "investigações internas" isto jamais acontece, haja vista que a Globo não seria burra de auto-incriminar-se. Eu conheço muito bem esta Globo. Como já mostrei em post anterior, ela fez uma novela para eleger o Collor (Que rei sou eu?) e outra para eleger o Lula (O salvador da pátria). Também fez duas novelas para os judeus processados por mim na justiça brasileira (O DONO DO MUNDO e O REI DO GADO). Recentemente teve participação numa grande sacanagem tramada contra mim (via programa Vídeo Show), além da participação da empresa de informática de Cuiabá (Kadri) e uma funcionária sua judia e a multinacional japonesa EPSON e a empresa de software Iobit. Enfim, de santa essa Globo não tem é nada. Conheço essa empresinha de submundo mais que o leitor. Sei muito bem o que estou afirmando.

Estão aí as previsões para 2018 do homem que previu o Brexit e a vitória de Trump. E a maioria não é boa

A menos de sete semanas de 2018, a Internet debruça-se sobre as previsões para o próximo ano do auto-proclamado "vidente profissional" que previu o Brexit e a vitória de Donald Trump

Se o britânico Craig Hamilton-Parker tiver razão, avizinha-se um ano pouco tranquilo. Mais ataques terroristas, o derrube de Kim Jong-un, mais um noivado real e uma grande erupção vulcânica estão entre os acontecimentos anunciados pelo "vidente profissional" no seu canal no YouTube.
Um olhar pelas previsões anteriores Hamilton-Parker permite perceber que nem sempre acerta (para este ano, por exemplo, previu a saída de Itália e da Dinamarca da União Europeia), mas a seu favor falam o anúncio antecipado da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas e o Brexit.
Entre as suas previsões mais sombrias para 2018 está uma série de ataques terroristas, assim como uma retração económica a nível mundial.
Já o Reino Unido, acredita o vidente, enfrentará várias greves em massa e assistirá ao anúncio do noivado do príncipe Harry e Meghan Markle.
Os EUA devem, por seu lado, preparar-se para perder um navio de guerra, que afundará algures durante o próximo ano, mas não o Presidente: Trump irá resistir a uma tentativa de "impeachment".
Hamilton-Parker prevê ainda que o líder norte-coreano Kim Jong-un vai ser deposto pelo próprio povo depois de um ataque dos EUA, que um vulcão perto de Nápoles vai entrar em erupção (não refere claramente o Vesúvio) e que um grande pedaço de gelo da Antártida vai soltar-se.
Coisas boas para 2018? Um "crescimento da espiritualidade". "O conflito e a adversidade, juntamente com problemas ambientais crescentes vão unir as pessoas e desencadear o desejo de procurar o verdadeiro propósito da vida humana."

Migrantes africanos leiloados para escravatura na Líbia

Ahmed Jadallah/ Reuters

Por pouco mais do equivalente a 330 euros é possível comprar um homem. Imigrantes da Africa ocidental estão a ser leiloados para escravatura na Líbia

Victory é um jovem nigeriano de 21 anos. Quis deixar para trás a corrupção da terra onde nasceu e procurar uma vida melhor na Europa. Fugiu da única maneira que soube: vendeu as suas posses e viajou até à Líbia, onde um "contrabandista" o esperava para o levar de barco até ao continente europeu, a si e a milhares de outros na mesma situação.
Nos dias que correm, são poucos os barcos de imigração que conseguem sair da costa africana devido ao crescente policiamento da guarda costeira. Os traficantes deram a Victory e a todos os outros, em troca de dinheiro, um sítio para passarem as noites e os dias até uma nova oportunidade surgir.
Mas um dia, o dinheiro acabou. E com ele, o resto de dignidade que Victory ainda possuía ao fim de um ano e quatro meses em movimento. Para além das condições de vida deploráveis, do abuso e dos maus tratos que já vivia, foi vendido para escravatura.
O dinheiro realizado por esta transação serviria para reduzir a dívida que tinha para com os traficantes, foi o que lhe foi dito. Várias semanas de trabalho forçado depois, o dinheiro não era suficiente. Victoryfoi entregue novamente àqueles que outrora lhe prometeram liberdade, e revendido diversas vezes.
Acabou por ser libertado. Encontra-se agora num centro de detenção para imigrantes ilegais, em Trípoli, onde espera a deportação de volta para a Nigéria. Outros, na mesma posição que ele, não tiveram a mesma sorte."Gastei mais de um milhão [de nairas nigerianas, aproximadamente 2.360€]", reporta Victory à CNN. "A minha mãe teve até de ir a algumas povoações pedir dinheiro emprestado a diferentes pessoas, para salvar a minha vida".
A história de Victory não é única nem nova. Todos os anos milhares de pessoas passam pelos portos da Líbia, entre refugiados e imigrantes, na tentativa de chegar à Europa.
Naser Hazam, da Agência Anti-Imigração Ilegal de Trípoli, explica o processo a que já várias vezes assistiu. "Eles enchem um barco com 100 pessoas, essas pessoas podem ou não sobreviver", explica. "[O contrabandista] não se importa desde que receba o dinheiro, e o imigrante pode chegar à Europa ou morrer no mar".
Dada a sua localização estratégica, a Líbia é um dos principais pontos de saída de imigrantes ilegais para a Europa. Contudo, desde a queda política de Muammar Gaddafi, o território tornou-se caótico e os contrabandistas aproveitam-se diariamente da vulnerabilidade dos imigrantes, sem documentos e com poucas posses.
"A situação é terrível", reporta o diretor de operações e emergências da Organização Internacional para as Migrações (OIM), Mohammed Abdiker, após regressar da Tripoli.
"Algumas informações são verdadeiramente apavorantes e os últimos relatos de 'mercados de escravos' para imigrantes podem ser adicionados a uma longa lista de ultrajes".
Contudo, até agora, os "mercados de escravos" que muitos imigrantes relatavam à organização careciam de provas concretas para que alguma medida internacional pudesse ser tomada. Nem mesmo os responsáveis pelos centros de detenção, onde os imigrantes aguardam a deportação, conseguiam confirmar os "rumores" ouvidos.
Anes Alazabi, supervisor do centro de detenção para migrantes de Trípoli, confirma-o. "Nós ouvimos os rumores, mas não há nada óbvio a acontecer à nossa frente. Não temos provas", diz.
Agora têm. Em resposta a um vídeo enviado por "um contacto" que mostrava dois homens a ser vendidos para escravatura, a CNN viajou até à Líbia, onde gravou presencialmente um leilão de escravos imigrantes.
Foram compradas e vendidas cerca de uma dúzia de pessoas em seis ou sete minutos, relata a cadeia norte-americana, como se fossem mercadoria. Tudo se passou numa propriedade como outra qualquer, perto de Trípoli.

"O tempo está a esgotar-se": 15 mil cientistas assinam aviso alarmante


Reuters

O tom da carta à humanidade assinada por mais de 15 mil cientistas de 184 países é grave: quase todas as grandes ameaças identificadas há 25 anos tornaram-se ainda mais preocupantes

Vinte e cinco anos depois de cientistas de todo o mundo terem emitido um "alerta à humanidade" sobre o perigo de ignorar o ambiente, um novo alerta, divulgado esta segunda-feira, avisa que a maiora dos grandes problemas do planeta estão a piorar significativamente. Exceção feita para o buraco na camado do ozono, graças à redução do uso de aerossóis e poluentes que o originaram.
Publicada no BioScience, este "segundo aviso" é assinado por mais de 15 mil cientistas de um total de 184 países. A primeira carta, datada de 1992, foi subscrita por 1700 especialistas. Desde então, praticamente todas as grandes ameaças ao ambiente agravaram-se, com destaque para o crescimento da população mundial - mais 2 mil milhões, equivalentes a um aumento de 35 por cento. As emissões de dióxido de carbono provocadas pelo uso de combustíveis fósseis, a agricultura insustentável, a desflorestação, a falta de água potável, a perda de vida marinha e o aumento das chamadas zonas mortas nos oceanos são outras ameaças graves.
"Estamos a arriscar o nosso futuro", avisam, sublinhando que é "especialmente preocupante" que o mundo continue a encaminhar-se para "alterações climáticas potencialmente catastróficas devido ao aumento dos gases de estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis".
Os cientistas alertam também para os efeitos das atividades humanas nos animais, que estão a desaparecer "a um ritmo sem precedentes".
"Desencadeámos um evento de extinção em massa, o sexto em cerca de 540 milhões de anos, em que muitas formas de vida atuais poderão ser aniquiladas ou pelo menos ameaçadas de extinção quando chegarmos ao fim deste século", lê-se ainda no documento.
"Em breve vai ser tarde demais para mudar o rumo da nossa trajetória descendente e o tempo está a esgotar-se", escrevem os cientistas, lembrando que é preciso "reconhecer, na nossa vida do dia a dia e nas nossas instituições de governo que a Terra, como toda a sua vida, é a nossa única casa". E para melhorar as perspetivas da humanidade nessa casa, os signatários apontam alguns passos necessários, que vão desde tornar a contraceção mais acessível a apostar numa alimentação à base de plantas e nas energias renováveis.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Copos e taças decorados têm níveis perigosos de chumbo e cádmio

Copos e taças decorados têm níveis perigosos de chumbo e cádmio
Entre os objetos analisados pelo pesquisador estão canecos e copos de marcas comercializadas mundialmente, incluindo propagandas de bebidas, franquias de filmes e desenhos animados.
[Imagem: Lloyd Russell/University of Plymouth]
Chumbo e cádmio
Copos de beber esmaltados e canecos de merchandise populares podem conter níveis potencialmente tóxicos de chumbo e cádmio.
O Dr. Andrew Turner, da Universidade de Plymouth (Reino Unido), realizou 197 testes em 72 produtos de vidro novos e de segunda mão, incluindo copos, taças de cerveja e vinho e jarras.
Ele identificou a presença de chumbo em 139 objetos e de cádmio em 134, tanto na superfície dos vidros quanto, em alguns casos, nas bordas, onde os lábios tocam, com concentrações de chumbo que chegaram a mais de 1000 vezes acima do nível limite.
Os testes mostraram que flocos de tinta geralmente se soltam do vidro durante uma simulação de uso prolongado, indicando que as substâncias podem estar sendo ingeridas pelos usuários.
"A presença de elementos perigosos na pintura e no esmalte de vidro decorado tem implicações óbvias tanto para a saúde humana como para o meio ambiente. Por isso, foi uma verdadeira surpresa encontrar níveis tão elevados de chumbo e cádmio, tanto na parte externa do vidro como em torno da borda. Existem riscos genuínos para a saúde pela ingestão de tais níveis das substâncias durante um período prolongado, então este é claramente um problema que a indústria internacional de produtos de vidro precisa resolver com urgência," disse Turner.
Metais pesados nas tintas
Mais de 70% dos objetos de vidro analisados (52 de um total de 72) deram positivo para o chumbo, e o metal foi encontrado em todas as cores gravadas, incluindo a folha de ouro decorada de alguns itens. Um número semelhante (51 dentre os 72) deu positivo para cádmio, com as concentrações mais altas geralmente encontradas no esmalte vermelho.
As concentrações de chumbo variaram entre cerca de 40 a 400.000 partes por milhão (ppm), enquanto as quantidades de cádmio variaram de cerca de 300 a 70.000 ppm. De acordo com o Escritório Norte-Americano de Avaliação de Riscos Ambientais à Saúde, os níveis limite para a área dos lábios dos vidros decorados externamente são de 200 ppm para o chumbo e 800 ppm para o cádmio.
"Dado que alternativas mais seguras estão disponíveis para a indústria, os resultados globais deste estudo são surpreendentes e preocupantes," acrescentou o Dr. Turner. "Por que elementos prejudiciais ou restritos ainda estão sendo empregados com tanta frequência para decorar utensílios de vidro contemporâneos fabricados na China, na União Europeia e em outros lugares? Eu acredito que os consumidores devem ser conscientizados disso, enquanto os varejistas e a indústria do vidro têm a responsabilidade de eliminar metais tóxicos dos produtos decorados."

Exame detecta mutações conhecidas e desconhecidas do câncer

Exame detecta mutações conhecidas e desconhecidas do câncer
O exame é baseado na detecção do DNA das células tumorais usando uma técnica chamada exoma completo.
[Imagem: Susanna Hamilton/Broad Institute]
Exoma
Mais um exame mostrou-se capaz de capturar e quantificar o DNA de um tumor a partir de uma amostra do sangue.
Isso faz com que a doença seja detectável antes que os exames tradicionais a identifiquem ou permite rastrear restos de células cancerosas que restaram após um tratamento, diminuindo a chance de uma recidiva.
Embora não seja um exame aplicável universalmente, a técnica mostrou-se eficaz em 33 a 49 por cento dos pacientes com os diferentes tipos de câncer avaliados. Mas a equipe afirma que esse número provavelmente aumentará à medida que o sequenciamento genético se tornar mais barato - o exame é baseado na detecção do DNA das células tumorais usando uma técnica chamada exoma completo.
"Nossa esperança no futuro é usar biópsias de sangue para procurar e caracterizar de forma exaustiva até os menores restos de tumores. E, à medida que os tumores evoluem para estágios mais avançados de câncer, desenvolvendo resistência ou tornando-se metastático, podemos acessar pontos no tempo que podem ser decisivos para decidir quais terapias são adequadas para esse paciente," disse o professor Viktor Adalsteinsson, do MIT (EUA).
A equipe desenvolveu uma ferramenta, que eles batizaram de ichorCNA, que consegue analisar fragmentos de DNA em busca de padrões de mutação quase universais em genomas do câncer. Isso é importante porque o exame poderia detectar cânceres com mutações conhecidas e desconhecidas.
Biópsia líquida
Essa capacidade de detectar e analisar o DNA do câncer em uma amostra de sangue de um paciente - a chamada biópsia líquida - está emergindo como uma alternativa promissora às biópsias cirúrgicas invasivas, especialmente quando os tumores aparecem em locais de difícil acesso.
Recentemente a IBM apresentou um biochip para fazer diagnósticos precoces e pesquisadores espanhóis criaram um biossensor que detecta anticorpos antes que o câncer apareça.

Gestos autênticos valem mais que clichês românticos

Pessoas concordam no que as faz sentirem-se amadas
As pessoas estão mais de acordo sobre ações amorosas, onde talvez exista mais autenticidade, em vez de simples palavras.
[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]
Simplicidade amorosa
As pessoas concordam em larga medida sobre quais gestos e ações as fazem sentirem-se mais amadas.
Pequenos gestos não românticos - como alguém que demonstra compaixão ou alguém que se aconchega à outra como uma criança - ocupam o topo da lista do que faz as pessoas se sentirem amadas.
Por outro lado, comportamentos controladores - como alguém querendo saber onde elas estavam em todos os momentos do dia - foi visto como o gesto menos amoroso.
"Nossos resultados mostram que as pessoas concordam sobre o que faz com que as pessoas se sintam amadas no dia a dia, e os principais cenários não são necessariamente românticos. Portanto, é possível que as pessoas se sintam amadas em cenários simples e cotidianos. Não tem que ser gestos exagerados," disse Saeideh Heshmati, da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA).
Mais do que "Eu te amo"
Os pesquisadores recrutaram 495 adultos de ambos os sexos para responder um questionário sobre se eles pensavam ou não que a maioria das pessoas se sentiria amada em 60 cenários diferentes.
As situações incluíam ações positivas, como alguém demonstrar compaixão em um momento de dificuldades do outro; cenários neutros, como se sentir perto da natureza; e situações negativas, como alguém que atua de forma possessiva.
Heshmati conta que, embora os participantes não concordem com alguns itens - houve uma divisão quase perfeita, por exemplo, sobre se "alguém que lhe deu feedback positivo na internet" era amoroso ou não - houve muitos casos em que os participantes concordaram.
"Nós descobrimos que ações comportamentais - em vez de expressões puramente verbais - desencadearam mais consenso como indicadores de amor. Por exemplo, mais pessoas concordaram que alguém se aconchegando a elas como uma criança era mais amoroso do que alguém simplesmente dizendo: 'Eu te amo'.
"Você pode pensar [que essas duas coisas] que estão no mesmo nível, mas as pessoas estão mais de acordo sobre ações amorosas, onde talvez exista mais autenticidade, em vez de uma pessoa apenas dizer algo," detalhou a pesquisadora.

Rússia acusa EUA de colaboração com o Estado Islâmico






"A aviação da coligação interferiu com voos de aviões russos na zona para facilitar a retirada segura dos combatentes do Estado Islâmico", afirmou o Ministério da Defesa russo
A Rússia afirmou esta terça-feira que tem provas de que os EUA colaboraram com unidades do grupo extremista Estado Islâmico na província síria de Deir Ezzor (leste).
"A operação das tropas governamentais sírias na cidade de Boukamal [último bastião dos jihadistas na Síria] com cobertura aérea da força aérea russa, no final da semana passada, revelou factos de cooperação direta e apoio aos terroristas do Estado Islâmico pela coligação internacional dirigida pelos Estados Unidos", afirmou o Ministério da Defesa russo num comunicado.
A Rússia acusa os EUA de terem permitido a unidades terroristas que fugiam de Boukamal reagrupar-se e rearmar-se nos territórios controlados pela coligação na fronteira sírio-iraquiana, para contra-atacarem as forças do regime.
"Imagens recolhidas por aviões não-tripulados russos a 9 de novembro mostram colunas quilométricas de milícias armadas do Estado Islâmico a fugir de Boukamal para a fronteira", afirmou.
Segundo Moscovo, o comando militar russo propôs à coligação o lançamento de ações conjuntas para bombardear os jihadistas, mas os norte-americanos recusaram, com o argumento de que aqueles se estavam a render e estavam por isso protegidos pela Convenção de Genebra.
"Como se não bastasse, a aviação da coligação interferiu com voos de aviões russos na zona para facilitar a retirada segura dos combatentes do Estado Islâmico", acrescentou.
Para a Rússia, estes eventos constituem "prova irrefutável" de que os EUA, que afirmam combater o terrorismo sem tréguas, "na realidade dão cobertura ativa ao Estados Islâmico" para servir "os interesses norte-americanos no Médio Oriente".

Comentários deste blogueiro. Primeiro, tenho quase certeza de que os Estados Unidos, em conjunto com os Estados Nacionais ditatoriais islâmicos, foram os criadores do "Estado Islâmico", com o intuito primeiro (antes de qualquer motivação religiosa) de me assassinar (a mando dos judeus, principalmente, e dos islamitas - em segundo lugar). Só não o fizeram até agora porque eles conhecem o poder de Deus e temem matar-me. Segundo, quando jogava xadrez online compulsivamente, há mais de um ano atrás, conheci um enxadrista que se dizia americano e morava no Rio de Janeiro. Pois bem, cheguei à conclusão de que ele não passava de um agente do serviço secreto dos EUA (CIA). O cara, através dos perfis de e-mail que criava, antecipou quem seria o próximo papa e o próximo campeão mundial de xadrez. Dizia que era descendente de Jesus e que uns tais de medianitas queriam matá-lo por este fato. Dizia, entre outras coisas mentirosas, que tinha castelo na França e sua família uma fortuna de duzentos bilhões de dólares. Aliás, no último e-mail que me enviou, confessou-me, indiretamente, sutilmente, que estava a serviço dos judeus (aliados históricos dos EUA... para quem não sabe, os EUA se associam a qualquer um, desde que tenha muito dinheiro a oferecer-lhe - e os judeus têm empresas importantes nos EUA). Terceiro, um fato que pode comprovar a relação íntima entre os EUA e a Rússia na última eleição americana, talvez seja o fato de que o governo russo gastou US$50 bilhões com a realização da última olimpíada de inverno de Sochi, enquanto a Coréia do Sul, a próxima anfitriã da competição, prevê um gasto de nove bilhões de dólares. Assim, desconfio de que os americanos deram uma ajuda substancial financeira aos russos em troca da interferência russa na última eleição nos EUA - a qual elegeu Trump. Em suma: tudo indica que, de fato, ESTADO ISLÂMICO = EUA. (Quanto aos terroristas do Estado Islâmico que promoveram atos nos EUA, acho que eram lobos solitários que, para aparecerem, faziam menção ao Estado Islâmico. Questionamento final: para que serve o serviço de inteligência ianque? Para disfarçar, esconder as coisas inconfessáveis!)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A democracia não depende dos partidos, diz o espanhol Arana

Entrevista Especial Notícia da edição impressa de 13/11/2017. Alterada em 13/11 às 13h00min A democracia não depende dos partidos, diz Arana Em algum momento, terão que deixar que as pessoas decidam temas importantes, diz o espanhol Em algum momento, terão que deixar que as pessoas decidam temas importantes, diz o espanhol MARCO QUINTANA/JC Bruna Suptitz Para o espanhol Miguel Arana, a democracia não deve ser representativa, a não ser que não se tenha outra opção. Em tempos como o atual, com ferramentas de comunicação e tecnologia à disposição das pessoas, é possível que se estabeleçam sistemas de democracia direta. "O sistema em que umas poucas pessoas tomam todas as decisões dentro do poder não tem nenhum sentido", defende. Oriundo do Movimento dos Indignados (ou 15-M, alusivo à data de início da mobilização, 15 de maio de 2011), que reuniu milhares de pessoas nas ruas de Madri e se espalhou pelo país para reivindicar maior participação na tomada de decisões de interesse público, Arana entende que esse envolvimento não necessariamente deve ser através da formação de partidos para concorrer às eleições. "A nova forma de fazer política cidadã é cidadã puramente. No caso de Madri, isso se converteu em um partido político (Agora Madri). Mas essa não tem porque ser a resposta, pode ser um caminho." Na capital da Espanha, o partido local Agora Madri, formado por integrantes do 15-M, venceu a disputa em maio de 2015 e, no mesmo ano, implementou a plataforma Decide Madri, que transfere à população o poder de decidir sobre diversos temas, entre eles, os investimentos financeiros, inspirada no Orçamento Participativo de Porto Alegre. Arana, que não tinha relação com partidos políticos antes dessa experiência, é o diretor de participações cidadãs da prefeitura e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da plataforma digital. Ele comemora o entendimento da população, que não relaciona as consultas com o governo. "Queremos que isso fique o mais claro possível: depois de nós, se vierem outros partidos, é importante manter os métodos. A democracia não depende de quem está no poder." Jornal do Comércio - O grupo político que está na prefeitura de Madri tem relação com o Movimento dos Indignados? Miguel Arana - Sim, tem toda relação. O mais importante que ocorreu na Espanha nos últimos anos é o Movimento dos Indignados, que mudou toda a política do país e que se situa em um contexto muito mais global. É um movimento que surge na raiz da Primavera Árabe, um momento em que, na África, diferentes países se levantam, Egito, Tunísia, em movimentos cidadãos que reclamam uma democracia, que rapidamente salta à Espanha, se convertendo no Movimento dos Indignados, e segue saltando pelo mundo. Temos o Ocupa Wall Street, nos Estados Unidos, além de mobilizações na Turquia, em Hong Kong, em Taiwan. É um tipo de novo movimento que não tem tanta relação com a situação política de cada país, e sim com a nova forma de fazer política, feita por cidadãos e por qualquer um. E combina muito não só as novas tecnologias, que também são importantes, mas como podemos coordenar dezenas de milhares de pessoas para, juntos, fazermos ações políticas. Independentemente do que se reivindica em cada país, porque as reivindicações são muito distintas, há um substrato universal que é a democracia. Sempre, de alguma forma, o que se reivindica é que as pessoas tomem o controle de suas sociedades. JC - Como foi na Espanha? Arana - No caso da Espanha, isso começa com o Movimento dos Indignados, com uma manifestação em 15 de maio de 2011, na praça Puerta del Sol, em Madri, que pede "democracia real já", como forma de solucionar muitos problemas. E se transforma em um acampamento na praça, formam-se assembleias cidadãs, em que qualquer pessoa pode participar, e se começa a pensar de novo na política, no que queremos, independentemente dos partidos políticos. Durante quatro anos, o movimento foi muito ativo em todas as grandes cidades da Espanha. Frente a isso, não houve nenhum tipo de reação dos partidos políticos, que seguiram funcionando como sempre. Então o pensamento dessas pessoas foi de que teriam que ir aos governos, criando partidos políticos novos. A nível nacional, surge o Podemos, e, nas cidades, surgem partidos locais independentes, como o "Ahora Madrid" e o "Barcelona en Comú". JC - Como foi o movimento de sair das ruas e ir para o governo? Como foi encarar a população que já estava cansada da política e dos políticos? Arana - O momento de começar com os partidos políticos foi o mais complicado a todos. Nos primeiros quatro anos, em que simplesmente havia o movimento das ruas e as assembleias (populares), quase a totalidade da população confiava no movimento. Quando se perguntava "o que você pensa sobre o Movimento dos Indignados?", entre 80% e 90% da população dizia "estou de acordo". No momento em que se tenta fazer partidos políticos, se começa a desconfiar, imediatamente, o que é uma atitude bastante racional, porque não se tem que confiar no partidos políticos. E o resto dos partidos utilizam essa mesma dinâmica. Não tentaram dizer "podemos melhorar e mudar", disseram "você, novo partido, é tão ruim como eu". É uma mensagem bastante terrível. Mas foram quatro anos de movimento social, e as pessoas, confiando no que estava ocorrendo, deram uma oportunidade a esses partidos novos. O dia a dia é muito complicado. Temos que estar sempre fazendo um diálogo que tem a ver com o que o outro partido diz, com muitas coisas que não tem relação com os problemas reais. Mas, graças a todos esses anos, há uma certa confiança que nos permite que algo funcione, que, em outros países, não seria tão fácil. Agora, passados dois anos de governo, as pessoas já podem ver o que temos feito e é mais fácil que confiem, porque veem que, pela primeira vez, Madri tem Orçamentos Participativos, em que foram decididos diretamente € 160 milhões. As pessoas dizem "Sério? As minhas propostas? E agora estão fazendo!". JC - Existe uma percepção de que essas pessoas, que antes negavam os partidos políticos, têm participado? Arana - Pouco a pouco, vai crescendo a consciência e as pessoas que apoiam e participam. O número de usuários que entram no Decide Madri está crescendo em uma velocidade incrível. No início, eram umas dezenas de milhares, provavelmente as pessoas que já confiavam no partido. Agora, muita gente que inclusive desconfia do governo, mas participa do Orçamento Participativo, diz que isso é outra coisa. E respondemos que está correto. É interessante que os orçamentos participativos, as consultas e as propostas cidadãs não tenham a ver com o governo, porque quem vota são as pessoas. Queremos que isso fique o mais claro possível: depois de nós, se vierem outros partidos, é importante manter os métodos. A democracia não depende de quem está no poder, é o mais geral, como as seleções - ninguém diz que as seleções são de um partido ou de outro, são independentes. Isso é o mesmo. JC - As reivindicações feitas nas ruas estão sendo atendidas? Havia crise econômica, especialmente entre os jovens. Arana - Parcialmente. O problema é que os novos governos são em cidades, e o poder de uma cidade é pequeno. A maior parte das decisões que afetam a vida das pessoas de uma maneira importante ocorrem no governo ou da região ou do país. As políticas que têm a ver com a habitação, com os refugiados, com o próprio funcionamento da administração, tudo vem de cima. Então, parcialmente, as cidades podem fazer coisas, e cremos que estão sendo feitas coisas que ajudam muito a melhorar. Mas é limitado, muitas coisas seguem sem solução. Mas o mais importante que está ocorrendo é a mudança cultural. Se 3 milhões de pessoas em Madri entendem que a forma democrática de fazer as coisas é melhor, esse pensamento vai se estender a todos os outros níveis. As pessoas também vão querer decidir o que ocorre em nível nacional e regional, então vão se produzir mudanças muito maiores. Creio que é uma semente que está germinando muito rapidamente e que não vai poder parar. Em nível nacional e regional, não decidiram sobre usar nossa plataforma de participação, mesmo que tenhamos oferecido ajuda para instalar, se quiserem. Mas não poderão evitar, seja a nossa ou outra. Em algum momento, terão que deixar que as pessoas decidam temas importantes. E, nesse momento, a política vai mudar. Essa é a mudança que está se estendendo pouco a pouco ao resto do mundo, e creio que não se pode parar. JC - Uma das manifestações que se fazia no Movimento dos Indignados era "Não me representa!", em relação ao governo. Acha que agora representam essas pessoas? Arana - Não! Não os representamos e, por isso, estamos estabelecendo mecanismos de democracia direta. A política não pode ser representativa, somente quando não há outra forma de fazê-la. É lógico que, quando surgiram os primeiros partidos políticos, e não havia ferramentas de comunicação, tinha que ser representativa. Mas agora, com a tecnologia que temos e com a capacidade das pessoas de diretamente tomar as decisões, não pode continuar sendo assim. O sistema que temos de partidos e parlamentos tradicionais em que umas poucas pessoas tomam todas as decisões dentro do poder não tem nenhum sentido, é medieval. Isso que está ocorrendo na Espanha está ocorrendo em todo o mundo. As pessoas querem outro tipo de política, querem participar diretamente. O que pode acontecer é que países ou partidos tentem frear, e pode que em alguns chegue mais tarde, mas não vão evitar que chegue. O melhor que podemos fazer é assumir essa nova realidade e tentar trabalhar a democracia direta. Não queremos representá-los. Quanto mais desaparecermos, melhor. JC - E acredita que essa mudança está ocorrendo em todo o mundo? Vemos, por exemplo, a eleição de Donald Trump nos EUA. Como fica a participação popular nesses governos? Arana - São questões totalmente diferentes. A nova forma de fazer política cidadã é cidadã puramente. Estes movimentos ocorrem nas ruas, estão organizados por pessoas que começam a entender a força e a potência que têm. No caso de Madri, isso se converteu em um partido político. Mas essa não tem porque ser a resposta, pode ser um caminho. Queríamos mudanças que não aconteciam, então entramos (na política). É um caso raro o da Espanha. A mudança cultural precisa partir das pessoas para que a maioria da população entenda que a política tem que ser outra coisa. Como ocorreu em todas as mudanças culturais e políticas importantes, no feminismo, no cuidado com o meio ambiente. Não são mudanças que ocorreram porque foram eleitos políticos que protegem o meio ambiente ou respeitam as mulheres, há uma mudança cultural que, de repente, chega a todas as cabeças e, então, inevitavelmente, os partidos políticos mudam. Mas a mudança importante é essa outra (na sociedade), independentemente de que ganhe Trump. Em algum momento, já não poderá haver uma pessoa que não coloque mecanismos, por exemplo, de democracia direta real em seu partido. Todos os partidos velhos incluirão em seus programas, porque as pessoas não tolerarão que não seja assim. Essa é a mudança que estamos vivendo, que na Espanha há a casualidade que seja por partidos políticos, mas podia ser de outra forma. JC - Como Madri enxerga a relação da Catalunha com o restante da Espanha? Arana - O pensamento que ocorre na Catalunha tem a ver muito com como tomamos as decisões. Há pessoas na Catalunha que sentem que outras decidem por elas, e não querem que quem está no governo do país as represente. E há gente na Espanha que, quando os catalães dizem "vamos decidir que sistema político queremos", entende que essa decisão não se pode tomar lá, mas em todo o país. Em todos os ciclos, no fundo, há uma angústia por quem está decidindo sobre nossa sociedade. E, frente a isso, como todos os problemas democráticos, a única solução possível é que haja muito mais democracia. Sempre há decisões a tomar, se queremos apoiar ou não esse país, controlar nosso comércio, fazer mais ações sociais ou menos. A política falha quando as decisões se fecham, se ocultam, quando alguém assume uma das possibilidades e simplesmente avança com ela, como se não houvesse um problema, uma tensão. E isso é um pouco o que está ocorrendo na Espanha. Há muitos anos de tensão, sem uma possibilidade de falar de maneira real. Há partidos políticos se enfrentando, se atacando entre si, há debates muito superficiais da questão da independência, passados como clichê em questões que não têm nada a ver com a realidade que passa nos territórios. O que tentamos é introduzir mais democracia, debatendo mais, mas falar de verdade, o que significa uma nação, um território. Enquanto não ocorrer isso, vai haver mais dispersão. Não estamos propondo uma solução, mas vamos colocar os cidadãos acima de tudo. Por agora, não está funcionando, e a questão é um pouco mais de enfrentamento. Mas essa é a nossa aposta, tentar sair dessa luta e entrar em algo muito mais racional, que tem a ver com as pessoas. Perfil Miguel Arana tem 35 anos e é natural de Madri, capital da Espanha. Tem licenciatura em Física pela Universidade Complutense de Madri. É mestre e doutor em Física Teórica pela Universidade Autônoma de Madri. Concluiu o doutorado em 2013. Entre 2010 e 2014, foi professor assistente na Universidade Autônoma de Madri. Atualmente, é diretor de participações cidadãs e do projeto de participação Decide Madri, da prefeitura de Madri, onde se desenvolve o projeto internacional de participação Consul/Decide. Trabalhou desenhando e implementando ferramentas digitais e estratégias de participação em laboratórios de inovação, projetos europeus como D-CENT (Decentralised Citizens Engagement Technologies). Participou do Movimentos dos Indignados (também conhecido como 15-M) e, mais recentemente, da formação política local Agora Madri.

Como os EUA fazem a China grande novamente

A nova ascensão econômica chinesa é um plano de longa data, e as decisões erradas do presidente Trump reforçam essa trajetória. A era de Washington como hiperpotência chega ao fim, opina o jornalista Miodrag Soric.
Presidentes Trump (esq.) e Xi se cumprimentam em Pequim Presidentes Trump (esq.) e Xi se cumprimentam em Pequim
Como Donald Trump esbravejou contra a China durante sua campanha eleitoral! Há décadas Pequim estaria "se aproveitando" dos Estados Unidos, roubando sua propriedade intelectual. O país obteria vantagens comerciais ilícitas mantendo artificialmente baixa a cotação do renminbi, afirmava, produtos baratos chineses inundariam o mercado americano, ameaçando postos de trabalho.
O candidato presidencial republicano prometeu uma mudança de curso radical: ele imporia barreiras aduaneiras à China, colocando a rival sob pressão, e os interesses dos EUA, em primeiro lugar. Há dez meses Trump ocupa a Casa Branca, sem ter transformado em ação nenhuma de seus anúncios grandiloquentes. Pelo contrário: em sua viagem pela Ásia ele paparica o presidente chinês, Xi Jinping. Este aceita em silêncio as lisonjas do homólogo, por vezes com um sutil sorriso diante das câmeras.
O que terá acontecido com Trump? A que atribuir tal mudança de atitude? Ao que tudo indica, ele teve um encontro com a realidade. A economia chinesa floresce há décadas, a participação do país nas exportações globais perfaz 14% do comércio mundial – tendência crescente – enquanto os americanos mal alcançam os 10%.
Os EUA vivem de empréstimo, dependendo de que a China continue lhes concedendo crédito. Pois há anos os chineses vêm investindo os ganhos do superávit de exportações em títulos de dívida pública americanos. Dessa forma tornaram-se o maior credor do país, depois do banco central americano. Se quiserem, podem a qualquer momento fechar a torneira de dinheiro, precipitando a economia americana numa crise.
Está claro que Pequim não fará tal coisa, pois estaria prejudicando a si mesmo. No entanto a consciência dessa possibilidade fortalece a autoconfiança. Quando os chineses negociam com os americanos, é com alguém que lhes deve dinheiro. O embaixador chinês em Washington mal consegue andar, tamanho é o poder que carrega.
A maior parte dos teóricos da economia é unânime em afirmar que é uma mera questão de tempo até a China alcançar e, aí, ultrapassar os EUA como maior economia nacional. O tempo trabalha a favor de Xi, as ameaças do insolente colega não o abalam.
Também no tocante à Coreia do Norte, o presidente chinês não cede à pressão. Pequim não quer nenhum "regime change" em Pyongyang: por que contribuiria para ampliar a influência americana no Leste Asiático? Xi tampouco quer nessa região uma guerra, que poderia ser ruim para os negócios. O governo chinês urge os americanos a suspenderem as ameaças à Coreia do Norte e se esforçarem por uma solução diplomática – e com tais palavras de moderação recebe o aplauso da Europa e da Rússia.
Devido a uma série de más decisões, Trump vem dando ainda mais impulso à ascensão futura da China. A mais importante entre elas foi a retirada americana da Parceria Transpacífico (TPP). Em sua concepção original, esse acordo de livre-comércio deveria frear as pretensões hegemônicas chinesas. Auxiliados pelos EUA, países como o Vietnam ou o Japão pretendiam estabelecer padrões relativas, por exemplo, a produção, comércio, proteção trabalhista e ambiental. Os chineses teriam que se acomodar.
Entretanto Trump demonizou o TPP em sua campanha eleitoral e, após a posse, abandonou-o. Desde então crescem entre os aliados dos EUA na Ásia as dúvidas quanto à confiabilidade do país. Para China, isso é lucro.
A nova ascensão chinesa como potência mundial parece ser um plano de longo prazo. Sob Mao Tsé-tung, foram unificadas as províncias do país que antes se combatiam. Com Deng Xiaoping começou o avanço econômico. Agora Xi pretende fortalecer a tal ponto a política exterior e de segurança da China que os interesses chineses também tenham que ser considerados nas decisões da política mundial.
Trump não tem como impedir: a era de Washington como hiperpotência vai chegando ao fim.

Os "papers" do inferno

Pedro Marques Lopes

Sim, eles comem a nossa comida e respiram o nosso ar e esperam que nós o mantenhamos puro e saudável; eles exigem que sejamos educados para que trabalhemos para eles, e para esse propósito esperam que paguemos um bom sistema de educação pública. Eles também contam que vejamos os filmes deles, que compremos os seus produtos, que usemos os seus softwares. (...) Mas essas celebridades e empresários preferem nada fazer para que tudo isso exista. Deixam esse encargo para nós."
Tenho pena de não ter sido eu a escrever isto. Foi um senhor chamado Frank Thomas que, a propósito dos Paradise Papers, o fez numa crónica que publicou no The Guardian da passada quinta-feira.
No fundo, o cronista americano resume em poucas palavras o que está mais diretamente em causa neste terrorismo institucional contra as comunidades que em vez de AK-47 usa armas mais poderosas como os paraísos fiscais e a fuga massiva a impostos. As consequências práticas de um atentado permanente aos valores que permitem que uma comunidade se mantenha equilibrada, que a confiança entre as pessoas desapareça e se chegue a uma espécie de barbárie de cada um por si.
Talvez falte a Frank Thomas lembrar que as forças de segurança que nós pagamos estão sobretudo ao serviço de quem menos contribui para a sua existência e funcionamento, que os tribunais servem muito mais para defender os interesses deles do que os nossos direitos, que nós pagamos para que quem roube um euro vá preso e subsidiamos quem rouba milhões e milhões. Roubar? Não, roubar não é o termo. O que estes senhores e senhoras fazem não é roubar. O que fazem é legal, pelo menos não é ilegal. E esse é, talvez, o maior problema, como também bem nota o referido autor.
De facto, o que estas gigantescas corporações, multimilionários, artistas, desportistas fazem não é, na maioria das situações, contra nenhuma lei. As engenharias fiscais, as sociedades em cascata, os milhares de artifícios legais só disponíveis para os muito ricos. O que os Panama, Paradise e outros papers nos dizem é que há uma casta acima da lei. Um grupo de gente para quem andamos todos a trabalhar e quase nada devolvem às sociedades que lhes permitem ter aquilo que têm.
Quando googlar, mandar um e-mail, escrever numa folha de cálculo, comprar uma coisa qualquer através da internet, lembre-se de que essas magníficas corporações pagam percentualmente muito menos impostos do que um qualquer cidadão, daqueles privilegiadíssimos, que ganhe 2000 ou 2500 euros por mês. Que essas empresas e muitas outras basearam-se, claro está, na enorme criatividade e capacidade de trabalho dos seus fundadores e dos seus trabalhadores, mas aproveitaram todas as infraestruturas que os Estados, pagos por si e por milhões como você, construíram - vias de comunicação, a própria internet e tudo o resto.
Quem fala dessas empresas pode também falar dos muito ricos. E não devem ser esquecidos os artistas e desportistas que tanto aplaudimos e que tantas vezes nos fazem gastar o pouco que nos resta, que seguimos para todo o lado, que defendemos com unhas e dentes. São os mesmos que dependem de nós e que não hesitam em esquecer-se de tudo o que lhes damos na altura em que têm de nos devolver algumas migalhas. Vemo-los muitas vezes em eventos de caridade ou de solidariedade a destilar, sabemos agora, hipocrisia.
Lembro-me de na altura dos Panama Papers ter escrito que nada podia continuar como dantes. A verdade é que nada mudou e há bons indícios de que nada vá ser alterado. Bem sei que a globalização gerou um mundo em que o poder financeiro se tornou de facto universal e o político - e dificilmente deixará de assim ser - continuou local. Mas a questão é até simples: ou o poder político, reflexo da vontade das comunidades, se consegue impor ou a nossa maneira de viver implode. E se os nossos representantes se mantêm cegos e surdos à realidade que estes papers todos nos mostram é porque simplesmente deixaram de ter a capacidade de nos representar.
Não é pura e simplesmente possível uma comunidade viver na desconfiança sem que se desagregue ou, no mínimo, sem que corra seriíssimos riscos de isso acontecer. A desigualdade que aumenta já não é só a de rendimentos, é a própria igualdade de facto perante a lei que está em causa. Melhor, a lei não é a expressão da vontade popular e não é elaborada para o bem comum mas só para o bem de alguns.
Os Paradise Papers são a continuação de um romance de terror que desemboca na descredibilização completa da democracia, na perda de confiança dos representados nos seus representantes, na perda de valores fundadores do nosso modelo social e no desprezo por figuras que consideramos referências para as comunidades.
Não, este não é um texto de um revolucionário. É apenas um texto de um conservador que gostaria de continuar a viver em democracia, numa sociedade em que as pessoas não tivessem razões evidentes para desconfiar umas das outras e que acha o capitalismo um bom sistema. Mas que julga saber que não é possível um sistema sobreviver muito tempo quando os que menos podem pagam o mundo dos que mais podem, quando fica claro que a lei, que tem de ser um reflexo dos nossos valores e da nossa moral, serve para que uns tenham cada vez mais e outros cada vez menos.
O último livro de Robert Reich, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, tem o título Salvar o Capitalismo e o subtítulo "Para todos e não só para alguns".
É exatamente isso.